O OLHAR DE QUEM FAZ CINEMA NO PARANÁ
Na agricultura, soja. Na dança, fandango. Em meio às araucárias, pinhão. Engana-se quem pensa que o cinema não faz parte da cultura paranaense. Ele não só tem representatividade no estado, como também ajuda a contar a história do cinema no Brasil. A cidade de Curitiba, por exemplo, exibiu cinema menos de dois anos depois da primeira sessão dos irmãos Lumière. Logo após o Rio de Janeiro.
Desde a primeira exibição de imagens em movimento no estado, que aconteceu na capital paranaense, no dia 25 de agosto de 1897, no chamado Theatro Hauer e posteriormente Cine Marabá, o cinema deu os seus primeiros passos no desenvolvimento de uma arte criativa e produtiva na região dos pinheirais. O Paraná começou sua produção local efetivamente, por volta de 1907 e teve no ano de 1903 a exibição do primeiro filme brasileiro em Curitiba. Portanto , o estado é um dos pioneiros no Brasil na produção cinematográfica.
Se compararmos o Paraná, com uma referência nacional de produção nesse ramo, o Rio de Janeiro, por exemplo, ficamos muito aquém em termos quantitativos de produção cinematográfica, é o que afirma Marcos Cordiolli, produtor e assessor da diretoria da Agência Nacional de Cinema – Ancine. “Em termos quantitativos a produção de cinema comercial brasileiro está concentrada no Rio de Janeiro, que em 1989 produziu 54,8% dos filmes nacionais lançados. O Rio lançou em torno de 400 filmes entre 2005 e 2010, enquanto, o Paraná, disponibilizou no circuito comercial pouco mais de uma dezena de produções, nesse mesmo período.”
Porém, o produtor de Brainflorest, vê com otimismo o crescimento da atividade no cenário estadual. “Aqui tem uma produção de filmes de curtas e médias metragens reconhecida, qualificada e muito promissora. Pois possui diversas produtoras, tem um prêmio estadual, mantêm cursos profissionalizantes e possui atores com experiência”, afirma o assessor da Ancine.
Em termos nacionais a situação cinematográfica paranaense é mais positiva.
“Aqui sempre tivemos uma produção significativa se comparado a outros estados, mesmo quando a gente só produzia em película, antes do advento do digital” diz Geraldo Piolli, cineasta, filósofo, professor e atual coordenador do curso de Cinema da Cinemateca de Curitiba. Para o cineasta, fora o eixo Rio-São Paulo, o estado sempre foi um dos que mais produziram, junto com Rio Grande do Sul, Brasília, Bahia, Recife e Minas Gerais. Na realidade, poucos estados brasileiros produziam na época da película, “existem estados que até os anos 2000 não tinham produzido sequer um curta.“, afirma o cineasta.
Segundo Piolli, diretor do filme Nho Berlamino Nhá Gabriela, o Paraná, por ser um estado muito eclético desde a formação de suas etnias, transmitiu muito dessa mistura ao cinema. “Não existe uma linha de produção específica ou uma característica determinante. O cinema paranaense é um mosaico de produções diferenciadas, desde as temáticas e a estética, até a forma de fazer e de produzir. Por isso, não acredito que existe uma característica que defina o cinema paranaense”.
Para a diretora e produtora de Eternamente, Cristiane Lemos, o cinema local possui sim uma particularidade especial, “a meu ver o nosso cinema é mais autoral, ele busca refletir as nossas falas”. Ela critica a falta de esclarecimentos e de apoio do governo, com relação ao cumprimento da lei de incentivos, por parte dos empresários. “Para esse centro de produção de cinema do Paraná, existir de fato, precisaríamos no mínimo contar com mais disposição por parte dos governantes, numa campanha de esclarecimentos do empresariado local, para os benefícios da aplicação na área, que na verdade é um repasse do imposto, sem qualquer ônus para os mesmos”, esclarece Cristiane.
Frente às dificuldades em se fazer cinema no Paraná, José Olímpio Andreatta Cavallin (J. Olímpio), diretor, produtor e roteirista, ressalta respectivamente duas qualidades do cinema paranaense e dos nossos diretores, que contribuem para a crescente produção cinematográfica no estado, “graças à diversidade de estilos do nosso cinema e a persistência dos diretores daqui, conseguimos enfrentar as dificuldades financeiras (patrocínios) e a incompreensão da importância do cinema, como espelho onírico da sociedade humana”, enfatiza o produtor executivo de Curitiba Zero Grau e roteirista de O Sal da Terra.
Segundo a estudante de cinema e produtora executiva de Circular, Marisa Merlo, a falta de incentivos e de distribuição, emperra a divulgação, comercialização e um melhor desenvolvimento e aproveitamento da arte no estado. “O Paraná é carente de exibição. Ainda não dá pra afirmar que o estado vai um dia se tornar um grande centro de produção em cinema. Temos uma faculdade com alguns bons professores, que nos estimulam, mas depois de formados ou prestes a se formar, a maioria dos alunos, só pensam em seguir carreira fora de Curitiba (e do Paraná), pois, há muito pouco incentivo e esforço para que esse pessoal fique por aqui e desenvolva seus trabalhos”, afirma a produtora.
Marisa diz que não bastam somente leis ou eventos isolados para mudar essa realidade. Para ela, se faz necessário, pensar o cinema além desse viés. “Formar um grande centro de produção em cinema, não significa somente criar ou incrementar leis de incentivo que fomentem a produção de filmes e fazer uma pequena mostra vez ou outra. Cinema é muito mais que isso.”
O olhar de quem faz acontecer, no cinema paranaense, reflete à importância da sétima arte em nossas vidas. Cristiane Lemos, reforça essa ideia ao falar do seu conceito sobre o assunto, “o cinema é uma possibilidade para poucos de realizar uma façanha para muitos. Simplesmente uma janela, para o mundo ver, ouvir e sentir a tua singular visão e que pode de lambuja ser responsável por inovar, refletir e às vezes anular conceitos.”
Por Rogério Rodrigues
Por Rogério Rodrigues
Comentários
Postar um comentário