ENTREVISTA - A morte não é o fim. Para Jussara Joekil, perito criminal a mais de 20 anos, especialista em morte violenta – ela representa o que mais ama fazer, a justiça

O ser humano é avesso a certos temas que o incomodam. A morte é um deles. Jung em seu ensaio intitulado Alma e morte se contrapõe a esse pensamento ao dizer “devemos perceber como é grande a semelhança entre o desejo de viver e o desejo de morrer. Só permanece vivo quem estiver disposto a morrer”. O nosso personagem se relaciona todos os dias com esse tema, pois trabalha a muitos anos com o assunto. Mas nem por isso é menos humano, como qualquer outra pessoa, ou passa a ser descrente, por ver tanta desgraça alheia. Enfim, a morte pode estar banalizada, mas cada indivíduo possui o seu olhar sobre essa questão. Só depende de onde se está, à margem ou no centro da questão.
            Nascida e criada no bairro Portão, Jussara Joekil, 52 anos, presenciou tanto mudanças drásticas nos costumes curitibanos, quanto nos aspectos urbanos da cidade. Junto com a metrópole, nascem os arranha-céus, indústrias, desenvolvimento, etc. Mas também advêm problemas urbanos e sociais decorrentes do próprio inchaço populacional, proporcionado por todo esse crescimento. Um desses problemas é a violência, que em contrapartida gera muitas mortes na capital, em média 2 homicídios por dia segundo Mapa do Crime de 2011.
             A vinte e três anos, Jussara é perito criminal do Instituto de Criminalística do Paraná, atuando na especialidade de morte violenta. Segundo ela a sua grande inspiração foi o seu pai, que era policial, e desde a infância, sonhava com essa profissão. “Nunca me vi fazendo outra coisa, eu sempre quis ser polícia”, afirma a perita.
            Uma dona-de-casa, mãe, casada, com 3 filhos já criados. Que sempre procura ficar junto da sua família. Religiosa, acredita que Deus a colocou nesse ofício para tentar fazer justiça. Considera uma missão divina, ajudar as pessoas, solucionando os casos, principalmente aqueles em que o acusado nada deve.  Adora animais, atualmente está com quatro cachorros. Seus hobbies prediletos são fazer trabalhos manuais, costura, pintura e também atirar, afinal, são ossos do ofício.  Mas o que ela gosta mesmo, quando não está trabalhando, é de ler romances, especialmente de Oscar Wilde, e que de preferência não tenham nada a ver com violência.
            Ela é psicóloga, mas nunca atuou na área. Por sua experiência com a morte, apresenta uma visão verídica e sincera de uma realidade que não queremos enxergar ou preferimos simplesmente negá-la por comodidade. Porém Sartre contesta esse posicionamento sendo bem otimista quanto ao reconhecimento de nossas limitações afirmando que “a medida que nos conscientizamos de nossa mortalidade e fragilidade, poderemos mais intensamente valorizar a vida e viver sem desperdício de um só minuto de nossa existência” . 
Rogério – O perito criminal hoje, sofre preconceito devido ao que faz?
Jussara Joekil- Sim, devido a falta de conhecimento e preconceito das pessoas, que chegam até a se revoltar com a nossa presença no cenário do crime. Já me falaram que a gente demora pra chegar no local, porque queremos dinheiro. Existem processos burocráticos num homicídio, que devem ser cumpridos, como a chegada da polícia militar e civil primeiramente. Só que algumas pessoas ignorantes não entendem.
Rogério- Quais as principais dificuldades do ofício?
Jussara Joekil- No meu caso é a idade, porque não existem mortes só em via pública e dentro de casa. Existem lugares que você tem que andar no lombo de cavalo por 30Km por exemplo, e às vezes é dentro do mato, de noite, na chuva, banhado. Enfim, o meu maior obstáculo hoje, é a minha condição física para essa atividade.

Rogério – Como você relaciona vida pessoal e trabalho?
Jussara Joekil- Acho que eu sei separar bem as coisas. O meu trabalho é só mais um trabalho. O cadáver é só mais uma peça do crime, além dos vestígios e evidências. Não o vejo com emoção, porque não é mais um ser humano, é um cadáver. E por ele não ter mais vida, isso não me choca.
 Entrevista 

Rogério – O que sente ao se deparar com uma vítima e seus familiares? Como se dá essa relação?
Jussara Joekil-  Não tenho pena das vítimas e nem dos familiares. A minha relação com os parentes dessas pessoas é de carinho e sinto que o meu dever é ajudá-las. Enxergo tudo isso como um processo natural de maturidade, que a minha profissão me condiciona perante a morte. Se eu não me dissociar do aspecto sentimental, seria impossível a minha atuação nessa rotina.
Rogério – De que forma a sua família enxergaa sua profissão?
Jussara Joekil- Eu constitui família depois de já trabalhar como policial perito. Então, desde que concebi a minha família, todos sempre estiveram cientes do que faço. Ás vezes trago material e faço laudos em casa. O meu marido e os meus filhos perguntam, questionam e comentam sobre o que acham sobre os casos. Já a minha menina, que é engenheira, casou recentemente e foi morar na Alemanha, sabe o que faço, mas não quer nem saber do assunto, pois lhe causa pavor. Mas acredito que todos eles já estão acostumados, e que me admiram. O caçula até quer ser policial.

Rogério– Como você enxerga o retrato que os seriados como CSI e o cinema realizam sobre o ofício de um perito criminalístico?
Jussara Joekil- É muito frustrante como o cinema e a televisão retratam o nosso ofício. Apesar de mostrarem exatamente aquilo que fazemos, quanto a equipamentos, materiais e as técnicas. Existem algumas fantasias. Nesses seriados todos os casos possuem começo, meio (que é o processo investigativo) e um fim, que é quando se prende o acusado e se mostram as evidências que levaram até ele. Na vida real é outra coisa. De cada 10 casos, eu diria que 3 nós vemos o final. Não porque não queiramos, mas por excesso de trabalho. Outra coisa que considero errôneo nesses seriados como CSI e Cold Case, é o fato de que algumas mulheres ao mesmo tempo que estão pegando o cadáver, arrumam o cabelo ou ajeitam os óculos. Isso é totalmente contra a segurança do trabalho. A partir do momento que eu coloco as luvas, a minha mão deve sair do meu corpo. Antes de retirá-las, não posso tocar em nada mais.

Rogério – Os jovens se interessam pela profissão? O que eles podem agregar ao trabalho que já é feito?
Jussara Joekil- Atualmente, até pela visibilidade que esses mesmos seriados proporcionam, existem muitos jovens com bagagem acadêmica interessados e ingressando nesse ramo. Vejo com otimismo a entrada desse pessoal nessa atividade. Um aspecto é o quantitativo pela demanda crescente de crimes. Outro é o tecnológico, pois esse pessoal vem trazendo mais energia e conteúdo operacional pra nossa atividade, que aliada a experiência que nós já possuímos, podem trazer grandes avanços ao trabalho desenvolvido nessa área.


Rogério – O que é mais gratificante nessa profissão?
Jussara Joekil- É ver uma pessoa que está pagando pena, por uma evidência que a gente ajudou a encontrar. Ou quando não está pagando por aquilo que não fez também através do que eu faço. No caso Mérsia Nakashima, integrei a equipe que fez a reconstituição do caso. Apesar de toda a imprensa estar a favor do acusado até a nossa investigação, conseguimos provar através de várias evidências que apontavam somente para o ex-policial Mizael Bispo de Souza. O nosso trabalho foi feito, só falta a justiça ser cumprida.

Rogério – Curitiba é uma cidade segura? Como você vê o jovem nesse mundo violento?
Jussara Joekil- Neste momento não. Hoje os pais estão enterrando os filhos. E se continuar no ritmo que está daqui a 20 anos existirá uma lacuna no nosso país. Seremos um país de velhos e crianças, tamanha a destruição que o tráfico de drogas e de armas vem causando a nossa juventude. Principalmente o tráfico de armas, pois são elas que matam diretamente. Em todos esses anos de trabalho, se presenciei 4 casos de morte por overdose de drogas, foram muitos. A droga em si não mata, as armas sim. Por isso temos que combater esse tipo de tráfico a todo custo.

Rogério – Qual é o fundamento de se trabalhar com a morte? O que mais lhe fascina?
Jussara Joekil- A essência do que faço não está em trabalhar para a vítima ou para o rel, mas para servir a justiça. E o que mais me fascina é o processo de investigação.

            Montaigne escreve em seu ensaio Estudar Filosofia é aprender a morrer: dê lugar a Outros, assim como outros deram lugar a você: “a utilidade de viver consiste não no tamanho dos dias, mas no uso do tempo. Um homem pode ter vivido muito tempo e, mesmo assim, ter vivido apenas um pouco”. Isto mostra que somente reconhecendo os ciclos da natureza, estaremos preparados para a vida e consequentemente para o processo da morte.

Texto: Rogerio Teotonio
Imagens: Rogério Teotonio

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