Operacion Viento Fuorte


                       Em meio à mansidão do mar, de uma madrugada calma, de um sábado qualquer. Um dia 27 de fevereiro de 2010, que parecia só mais um. Mas não era qualquer sábado, não era qualquer dia no Chile. Pois um estrépito estrondo rompe o silêncio e anuncia o inevitável. A 59 quilômetros de profundidade, a vida de muitos, começa a mudar.
                        A terra se move com força, e se tem início algo explicável para a ciência, mas inexplicável pra quem vive uma tragédia. Como conter ondas de até 30 metros de altura? Rios são engolidos, casas destruídas, cidades têm a sua geografia completamente mudada.
                        Foi um terremoto de magnitude 9, na escala Richter, que atingiu sem piedade o Chile. O seu epicentro foi Calleta Tubul, província de Arauco. Porém, foi em meio à tanta destruição, que ali nasceu a união de algumas pessoas, em prol de um objetivo maior. A Operação Vento Forte.             
                        O cinema é um agente de potencial força na propagação e resolução de problemas sociais, haja vista, a sua própria origem que surge das classes operárias. Outro aspecto importante da sétima arte pode ser o de elucidar fatos, movimentos, conflitos e tragédias. Seguindo uma versão real, caracterizando fielmente a história ao fato, ou se basear num dado verídico e viajar sobre o tema, apontando outras significações para um mesmo acontecimento.
                        Pura e simplesmente relatar um fato, pode parecer mais jornalismo, mas não é a proposta do documentário Operación Viento Fuorte, dirigido pelo curitibano Diego Alexandre Stavitzki, que diz que esse filme nasceu sem pretensões de ser um filme, ele só queria fazer um registro e ajudar de alguma maneira aquelas pessoas.
                         Mas, ao se deparar com aquela situação trágica, no epicentro do terremoto, algo mudou. “ Onde 96% das casas foram destruídas, lá pude vivenciar como o ser humano se comporta no caos. Ao mesmo tempo que vi mulheres armadas defendendo as suas casas com barricadas, vi pessoas do outro lado do globo, de países como Suíça, vindo ajudar espontaneamente o povo desabrigado.”
            O documentário Operación Viento Fuorte teve seu foco inicial para a reconstrução do único local de educação e cultura de Tubul, a escola Brisas del Mar, que graças à um empresário brasileiro, pode ser reconstruída em menos de um mês, com uma estrutura sólida de contêineres.
            A produtora e co-roteirista do filme, Tatiana Hultmann, comenta o que mais lhe marcou ao se deparar com aquela situação, “O que me chamou a atenção assim que chegamos foi o tamanho da destruição, ficou muito claro que nós somos extremamente frágeis e pequenos. Nós precisamos abaixar a cabeça e passar a tratar com mais respeito uns aos outros e principalmente a natureza, porque quando ela revida, não sobra nada.”   

            Segundo Stavitzki o projeto possui duas  finalidades básicas:
-Atrair o olhar de possíveis apoiadores e voluntários para que de alguma maneira participem da reconstrução da cidade de Tubul;
- Servir como uma espécie de guia, para auxiliar as pessoas a passarem por esse tipo de calamidade, que está cada vez mais constante no planeta.
            Através da sétima arte, mesmo num lugar longínquo como o Brasil, Operación Viento Fuorte busca desenvolver uma consciência social mais próxima das pessoas. Convidando-as a participar, isto é, não fazer só elas refletirem sobre o fato, mas incentivá-las à agirem sobre tal questão. Dessa forma, o objetivo é fazer com que elas contribuam, não só voluntariamente a um projeto, mas para se prepararem para enfrentar situações adversas, que podem ocorrer em suas vidas.
                        Para Tatiana, a intenção é abordar o desastre, pelo prisma cinematográfico, sem perder o cunho social e sem ser apelativo. Através do filme se objetiva reconstruir um pouco, do muito desse país que foi destruído, “neste filme buscamos mostrar a reconstrução do Chile fugindo do sensacionalismo da mídia e mostrando o lado mais humano das pessoas. Nele é possível realmente sentir e aprender com as ações de cada um. No meio do iodo, os chilenos viram nascer o lírio e passaram a ter esperança no ser humano”, afirma a produtora.
                        Stavitzki reitera a importância desse aspecto no cinema, mas com uma visão mais aberta. “Podemos fazer cinema social com filmes que não retratem necessariamente uma temática social. O cinema pode funcionar como um ponto de atração, para que aqueles que se encontram à margem ou sem acesso a este conhecimento possam inteirar-se numa produção ou numa oficina, por exemplo, ou até se beneficiar de uma exibição, cuja renda é destinada a algum projeto social específico. Enfim, existem muitas maneiras de fazer com que um filme, não fique ali, somente dentro da sala de exibição. Ele pode se ramificar e dar frutos, que vão bem além do cinema em si.”
                        Para o diretor, as principais dificuldades para se fazer o documentário, foram as de acesso à um local totalmente isolado, devido a queda de pontes e estradas, mas, principalmente na pós produção do material, pois ele queria transmitir através das imagens, a mesma emoção que sentiu estando lá, vendo as lágrimas dos habitantes se misturarem as lágrimas dos voluntários.
                        Já a co-roteirista do documentário, ressalta algumas outras dificuldades técnicas do processo de produção. “Sendo um projeto independente, nossa equipe era reduzida e fomos munidos do equipamento mais básico possível. A captação de som foi desafiante, porque ventava muito e ainda aconteciam tremores, que deixavam todos em estado de alerta. Conduzir as entrevistas foi complicado, pois a população estava sensível e a comoção era grande, também por isso, não dava para repetir tomadas.”
                        “No final da tarde, enquanto acontecia uma entrevista, um caminhão chegou e todos saíram correndo para descarregar os móveis da escola Brisas Del Mar. Foi um momento único, em que acabamos filmando pouco. Nós só queríamos colocar a mão na massa naquele momento”, conta com muita emoção Tatiana.

                        O documentário Operación Viento Fuorte está em processo de finalização e legendagem para português/inglês. A previsão de estréia no Brasil é em outubro desse ano.

Rogério Rodrigues

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