Marcos Cordiolli da ANCINE, fala da importancia do cinema paranaense e seus diretores


Em entrevista a Rogério Teotonio Rodrigues, Marcos Cordiolli, da diretoria da Agência Nacional de Cinema – ANCINE, fala de cinema paranaense


Ficha Técnica:
Nome: Marcos Cordiolli
Idade: 48 anos
Formação: Historiador e Mestre em Educação
Ramos de atuação: Produção Executiva em Cinema e TV. Atualmente na assessoria da diretoria da Agência Nacional de Cinema – Ancine.
Filmografia:
Produtor Associado do filme O Sal da Terra (Brasil, 2008) de Eloi Pires  Ferreira.
Diretor de Produção (com Elói Pires Ferreira) de Conexão Japão (Brasil, 2008) de Talício Sirino.
Produtor Associado e Produtor Executivo de Curitiba Zero Grau (Tigre Filmes)
Produtor Executivo de Brainflorest (Brasil). Animação em Longa Metragem de Paulo Munhoz (Tecnokena) ainda em produção.
Também estou lançando uma coluna de critica de cinema em jornal.


1 – O Paraná pode ser considerado um grande centro de produção em Cinema? Por quê?
                        Em termos quantitativos a produção de cinema comercial brasileiro está concentrada no Rio de Janeiro, que em 2009 produziu 54,8% dos filmes nacionais lançados. O Rio de Janeiro lançou cerca de 400 filmes entre 2005 e 2010, enquanto, o Paraná disponibilizou no circuito comercial pouco mais de uma dezena de produções. Mas esta é apenas a ponta do Iceberg. O Paraná tem uma produção de filmes de curtas e médias metragens reconhecida e qualificada.
                        O Paraná está em situação muito promissora quando se trata de produção de cinema. É sede de diversas produtoras atuando intensamente na produção. Instituiu um prêmio estadual que garante a cada dois anos (que deveria ser anual) a realização de um longa metragem e três tele-filmes. Mantém escola cinema na FAP e outros cursos profissionalizantes. Dispõe de um diversificado e amplo quadro de atores com experiência.O Paraná é também um estado cenário com diversidade de paisagens e de etnias.
                        Os filmes paranaenses de curta e longa metragem a muito tempo são destaques em festivais internacionais. E entre as animações, o Brasil produziu menos duas dezenas de filmes em toda a nossa história e dois deles foram produzidos por Paulo Munhoz, no Paraná.
                        Portanto, posso afirmar que o Paraná, potencialmente, é um grande centro de produção em cinema.


2 – Quais as principais características ou particularidades do cinema paranaense e seus diretores?
                        O Paraná tem uma variada produção cinematográfica em diversos gêneros e formatos. Vou tratar aqui, com uma certa injustiça, apenas dos filmes de longa metragem produzidos nos últimos anos em Curitiba. Por dois motivos. Primeiro, porque são os filmes de longa metragem produzidos para salas comerciais de exibição que efetivamente promovem um território como produtor de cinema. E segundo, porque é o segmento que conheço melhor.
                        Os filmes do Paraná possuem qualidade de produção internacional, ou seja, estão qualificados para exibição em qualquer sala de cinema ou canal de TV do mundo. Por outro lado tem se destacado pela qualidade estética, sendo que quase todos eles obtiveram sucesso em festivais internacionais. “Estômago” de Marcos Jorge, foi reconhecido pela critica brasileira e internacional, conquistou uma legião de fãs, arrebatou vários prêmios em festivais internacionais e foi assistido por um bom público em diversos países. O Sal da Terra fez sucesso em dois festivais internacionais, um em Paris e outro na Califórnia, e é reconhecido como Road movie, ousado e significativo. “Belowars” é a poesia visual na sua forma mais absoluta, foi reconhecido em festivais internacionais e, acredito, que ainda não foi descoberto pelo público, o que ocorrerá mais cedo ou mais tarde. “Misteryos” de Beto Carminatti e Pedro Merege, teve um baixo desempenho nas bilheterias, mas concorreu ao grande prêmio do cinema brasileiro e seguramente deverá ser objeto de estudos nas escolas de cinema pelos planos e seqüências criativas, entre outras qualidades. Corpos Celestes, de Marcos Jorge e Fernando Severo, muito diferente de outros filmes produzidos no Brasil, é uma pérola: elegante, requintado e extraordinariamente bem elaborado. “Brichos”, também de Paulo Munhoz, criou uma família de personagens animados baseados na fauna brasileira que pode vir a se incorporar definitivamente a cultura infantil, como breve lançamento de “Braimforest”. “Morgue Story: sangue, baiacu e quadrinhos” de Paulo Biscaia é também primoroso, representante maior no Brasil, das obras que se aproximam dos chamados filme B. O Curitiba Zero Grau, também de Eloi Pires Ferreira recupera a tradição dos cronistas locais e traduz na linguagem cinematográfica com apurada intertextualidade visual. Todas estas obras são candidatas a reverência como filmes Cult e com perenidade de exibição. Ainda não vi "O Coro" de Werner Schumann e “Circular” de Adriano Esturilho, Aly Muritiba, Bruno de Oliveira, Diego Florentino e Fábio Allon e, segundo, o que ouvi, parecem ser dois filmes do mesmo grupo: construção estética apurada com aprimorada linguagem cinematográfica.

3 – O cenário atual permite com que haja uma evolução do cinema aqui no nosso Estado? De que forma isso pode ocorrer?
                        O cinema paranaense para continuar crescendo precisa superar diversas dificuldades e entre estas vou enunciar alguns gargalos: as dificuldades de comercialização e distribuição; a instabilidade de financiamento e a necessidade de qualificação das produtoras.
                        O gargalo da distribuição é nitidamente percebido quando belos filmes como o “Cantoras do Rádio”, de Gil Baroni, e o Belarmino e Gabriela de Geraldo Pioli, por falta de distribuição tiveram baixo desempenho quando teriam todas as condições de fazer um bom público no cinema ou de conquistarem uma boa audiência de TV. Em termos de TV, temos ainda a proposta de série com a família de personagem Brichos e o Caminho da Escola de Heloisa Passos, que ainda não decolaram, mas que representam boas perspectivas de produção televisiva. Neste sentido é importante, o fortalecimento de distribuidoras que atuem com conteúdo regional, como a distribuidora paranaense da Diana Moro.
                        O segundo gargalo é o da instabilidade do financiamento para o cinema. Veja o caso de Marcos Jorge, realizou o Estômago, que conseguiu grande sucesso, e como diretor é sondado por produtoras internacionais. Apesar desta situação, Marcos Jorge ainda não tem os recursos suficientes para produzir “O dois seqüestros” o seu próximo filme. No aspecto local é importante constatar a ausência de política regional para a estruturação da cadeia produtiva do audiovisual que garanta o crescimento sustentável deste segmento da economia.
                        O terceiro gargalo é referente à reduzida qualificação empresarial das produtoras de cinema do Paraná. Na maioria das vezes, são empresas administradas pelos próprios artistas (roteiristas, diretores e montadores). O Cinema é uma atividade industrial e que, mesmo localmente, disputa espaço com as gigantescas produtoras dos Estados Unidos. No entanto, o Paraná, já conta com boas experiências entre as quais a Artelux dirigida pela Laurinha Dalcanale que atua como co-produtora, tanto local, como nacional e internacional, além de trazer produções internacionais para cá. A Zencrane, gerenciada pela Claudinha da Natividade, que já desenvolveu um padrão de negócios com qualidade internacional. A Tecnokena de Paulo Munhoz e Daniela Michelena já possui qualificações impares e destacáveis na área da animação. E Laz, de Rubens Genaro e Virginia Moraes que desde o início empreenderam importante produções com parceiros de outros estados e internacionais.

4 - Quais os aspectos mais relevantes na construção de um filme?
                        O aspecto mais relevante é o desenvolvimento do projeto do filme. Uma boa história sem roteiro de qualidade, sem plano de produção eficiente e sem foco de comercialização delimitado corre muitos riscos de fracassar. O improviso e o amadorismo não têm lugar na economia do cinema! Não se pode aderir a síndrome do cachorro vira-lata, pois só bons filmes possibilitam a conquista de espaço no circuito cinematográfico. A qualificação da produção é condição necessária, porém  não suficiente, para realizar bons filmes com resultados adequados estéticos, de circulação e comercialização.

5 - Quem mais lhe influenciou ao longo de sua carreira?
                        A principal foi á convivência com cineastas motivados, utópicos e competentes. Cito primeiramente a experiências com Eloi Pires Ferreira e J. Olimpio na pós produção e distribuição do Curitiba Zero Grau. O trabalho em parceria com Laurinha Dalcanale, no inicio da produção do ainda inédito “Cinco Estrelas”. A convivência cotidiana com Paulo Munhoz na produção do Brainforest. Também o convívio com Talicio Sirino, Eloi e J.Olimpio na elaboração do projeto do Seriado Franco, ainda em produção. E por ultimo, o convívio com  toda a equipe de produção do Curitiba Zero Grau, uma verdadeira epopéia realizadas nas ruas de Curitiba, sob a coordenação de Salete Machado.
                        Apontaria ainda mais algumas influências importantes. A primeira foi a ter assistido a muitos filmes bons nos cinemas públicos de Curitiba. Eu sou da geração Cine Groff, Ritz, Luz, Guarani e Cinemateca Guido Viaro. Nos anos 1980, eu pude assistir, em tela grande, os importantes clássicos do cinema italiano, soviético, japoneses, alemão, italiano, latino-americano. Além de filmes de arte e autorais de diversas partes do mundo, como a Hungria, Polônia, China etc. Hoje continuo assistindo e revendo filmes na televisão e mostras, mas nada é comparada com aquela fase de exibição de filmes clássicos em Curitiba.
                        A segunda foi a formação com cursos e muita leitura sobre todos os aspectos artísticos e técnicos. Assisti a aulas com Celso Kava, Alessandro Larocca, Geraldo Pioli, Luciano Coelho, Hugo Mengarelli e diversos intelectuais de outras partes do Brasil que ofertaram cursos e palestras em Curitiba.
A terceira é mais recente, refere-se a experiência atual na assessoria da Diretoria da Ancine, o que tem me permitido aprender e compreender outras dimensões da produção cinematográfica. E a isto sou grato ao Diretor Glauber Piva que me convidou para esta importante função.

7 - Quais as principais dificuldades em se fazer um filme?
                        O primeiro é construir o roteiro, um plano eficiente de produção e a conquistar a garantia dos recursos humanos e materiais para a produção e distribuição do filme. Temas que já abordei em outra pergunta. Ou seja, vencer os desafios de formatar o projeto estético e a estratégias de produção e distribuição do filme.
                        O segundo é montar a equipe. Os filmes são obras compostas, que tem diversos profissionais, com conhecimentos específicos que influenciam o produto final. Eu sou daqueles que desconfia de filmes que tenha uma mesma pessoa em mais de duas funções autorais chaves, embora, reverencie bons cineastas que conseguem esta proeza. Mas, a principio, não recomendo.
                        O terceiro é conseguir o financiamento adequado. Não se faz cinema sem dinheiro. Pode se fazer filmes com pouco dinheiro e muita criatividade. As tecnologias digitais facilitam a captura de imagem, a edição e a promoção dos filmes. Mas bons filmes requerem locações, maquinaria, figurinos, cenografia, técnicos qualificados e atores. Que trabalham às vezes por semanas. E este tempo corresponde a remuneração, transporte, acomodação e alimentação. E tudo isso custa caro.

6 - O que é CINEMA?
Eu estou próximo dos cinqüenta anos, penso nisso desde 10, quando, religiosamente, todos os domingos assistia as matinês de cinema. Mas ainda não tenho uma resposta segura. Mas te responderia subjetivamente: é o momento mágico de estar diante de uma tela e se deixar levar por um encadeamento de fotogramas, que mesmo sabendo que é de mentira, te arrebata e produz imenso prazer. E, mesmo, depois do filme ter terminado, ele te acompanha por muito tempo.
A definição de cinema, para mim, é necessariamente a experiência entre o expectador e o filme. Eu como produtor, quero produzir filmes para propiciar estas experiências a outras pessoas.
Mas ainda temos outras definições. A primeira é de que o cinema e a produção audiovisual, na sua totalidade, são instrumentos que interferem na formação da subjetividade humana. Portanto, a produção de cinema é fundamental na formação da identidade das populações e para garantir a autonomia com diversidade. Uma segunda é econômica. O cinema e o audiovisual é parte do segmento econômico que mais cresce no mundo, portanto, a produção de filmes é necessária para garantir a soberania econômica do país.

Por Rogério Teotonio Rodrigues 


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